Recomeço by Beto Ribeiro

Não me despeço do amor...
Apenas canto-lhe uma pequena canção de ninar,
para que adormeça em meu coração,
e acorde mais tarde, quem sabe,
disposta a andar de mãos dadas,
em contemplação aos botões do roseiral,
que brotaram enquanto velei-te o sono...

Não me importo mais com tal partida...
Apenas principio a chegada do teu perfume,
em pensamentos sutis, de desvarios amorosos,
em ativar em dentro do peito,
o aconchego do aperto dos corpos inertes do foco,
na ignorância do querer afastar-te do amar...

Não suspiro mais a sua visão...
Somente inspiro atônito, o rejeitar incômodo,
de nunca mais ouvir o cantar da Perdiz,
estampado no abrir de minha janela ao alvorecer,
confundindo um tal bem-querer,
em malmequer de margarida qualquer...

Ah, enfim... Não preciso de comportamento assim...
Como quem em cisma de poeta,
assenta o suportar de figura incerta, de amar amarrar
e segurar o voar sem a mínima sensibilidade do
saber bater de asas, em permanecer num planar
singular, de pássaro que retorna em sempre...

Sem gaiolas de amor a necessitar estar...
Até breve, sonho meu...
Até logo Bem-te-vi...
Cante em voz alta este levante de liberdade,
e me espere no caminho, que estarei a lhe avistar...
 Sonho de rei... Que em sonho direi...

 - Beto Ribeiro -

    

Amei-te Com As Palavras by Rosa Lobato de Faria

Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.

Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.

Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.

Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.


 - Rosa Lobato de Faria -


As Saudades Custam Caro by Ita Portugal

As saudades custam caro.

Custam algumas lágrimas que teimam em cair. O leite derramado por pura displicência. Cremes para esconder as olheiras de noites sem dormir. Falta de paciência com as coisas mais simples. Cansaço na vista de tanto olhar o visor do celular. Músicas que tocam repentinas vezes para lembrar-se do infeliz. Promessas feitas no analista, pra esquecer o sujeito e nunca cumpridas pela necessidade de um medíocre afago na alma. Toneladas de papeis escritos e nunca enviados. Custa o desconforto emocional das lembranças contidas no cheiro que ficou no ar.

Custa a coberta amarrotada. Os dissabores do presente sem a alegria do passado. A palavra engasgada e o sentimento suprimido. Custa o chá de erva cidreira. O antidepressivo. As sonolências da madrugada. Os carneirinhos da insônia. Os sonhos guardados na caixa. O DVD mudo com a cena romântica na tela. A falta de um colo. A história pela metade. Vertigens enjoadas. Gosto denso do nada. As tardes longas demais. Os finais de semana no velho sofá. Telefone mudo, doido pra fazer barulho.

Saudade custa tão caro que é melhor intimá-la a ir embora. E se não fizermos isso, ficaremos pobres, pedintes, babacas, usando apenas o resto da saudade.


- Ita Portugal -


Frêmito do Meu Corpo a Procurar-te by Florbela Espanca


Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...


- Florbela Espanca - 
in "A Mensageira das Violetas"


Morreste Em Mim by Rosa Maria

Morreste em mim.. .morremos um no outro tão ausentes
Assistindo à minha morte e brindando com cicuta à solidão
Como um pássaro cativo lanço à terra as minhas correntes
Sem saber quem sou ou se existo... se sou real ou só ilusão

Morreste em mim... e eu continuo morrendo em cada noite
Sem saber por onde caminhei... tão perto e tão longe de ti
Com o coração entre as mãos e o corpo afagando a morte
Adormecendo a noite que se deita comigo...vazia de mim

Morreste em mim... Deixei de esperar por uma noite de amor
Que me gelou o corpo que foi lume... sangue que foi paixão
Orgasmo que foi desejo...escorrendo do meu corpo em flor
E hoje é o lugar sombrio que tu habitas... apenas recordação

Morreste em mim... tristemente como uma noite sem braços
Tocando dolorosamente a minha pele... sedenta e abandonada
Onde adormeceram as tuas mãos e nasceram os meus cansaços
Foi aí que morreste em mim... no frio que habita a madrugada

Morreste em mim...num lugar sombrio em que estás sem estar
Nas rosas que me deste cobertas de espinhos e perfume de dor
Neste silêncio que nos une... no tudo que me deste sem me dar
Nas noites em que morri em mim... solitária e prenhe de amor

Morreste em mim... quebrei as correntes...cumpri a minha pena
Deixei que as folhas mortas do Outono cobrissem o meu leito
Envolvi-me com o vestido vermelho do amor e esperei serena
Que as rosas que me adornaram voltassem a florir no meu peito


- Rosa Maria -

Ela Dança Em Meus Pensamentos by Tatiane Silva

Ela dança em meus pensamentos.
Permanece intacta aos meus sentimentos. Dela eu só ouço ao longe, palavras e sussurros. Eu me rendo, sem que ela perceba. E amo, sem que ela me ame. A gente sempre foi assim. Um jogo, um acaso, um destino que não procuramos uma maldição que não desejamos. A gente sempre foi conto para os outros dormirem.

Ela volte e meia vem a mim, com um sorriso no rosto. Com as bochechas vermelhas, tentando esconder que me deseja como louca. E eu, que de bobo não tenho nada, sempre lanço meu olhar mais sedutor, só para ela saber que por ela eu faria tudo, que por ela eu seria um nada, que por ela eu roubaria o mundo e guardaria numa caixa de sapato debaixo da cama. A mesma cama em que mil vezes a gente já fez amor. Ela vive em meus sonhos mais cheios de pecados. Eu peco noite e dia, e a noite eu me ajoelho e rezo. Por favor, proteja aquela dama que é totalmente dona do meu amor. E que eu amo, sem precisar e amo sem ela saber. Pecamos na madrugada. Ela se vai. E eu fico. Calado, jogado na mesma cama onde guardo todos os nossos segredos. Segredos de um amor, inacabado, como o tempo.


- Tatiane Silva -


Soneto do Orfeu by Vinícius de Moraes

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente.
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar, que atua desvairado.
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Uma mulher que é feita de música,
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento,
Tão cheia de pudor que vive nua.


- Vinícius de Moraes - 



À Vida by Florbela Espanca

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia,
A gente esquece sempre o bom de um dia.

Que queres meu Amor se é isto é a vida?


- Florbela Espanca -


É Esse Céu Que Almejo by Cristina Correia

É esse céu que almejo
onde o tempo não tem lugar
e ondas transparentes de meu corpo
têm sabor a-mar...

Se a ilusão sacode o mundo
que a cor da rosa dos ventos
me indique o fruto na tua boca
o suco de tua maçã adão.

Que minha alma e corpo
fique repleta de ti
de teus sabores
num paraíso escondido
por nós achado... contemplado
num instante e-terno...


C.C.



Chamo-te Amor by São Reis

 Chamo-te amor
porque não sei chamar-te
de outra maneira
porque amar-te é uma ferida
que não para de sangrar
porque me transbordas o peito
e te alojas no mais recôndito de mim

Chamo-te amor
porque me ferves o sangue
e te aninhas nos meus lábios
porque me fazes esquecer a noite
e ver a forma das estrelas

Chamo-te amor
porque me fazes feliz
e infeliz ao mesmo tempo
porque me fazes sorrir e chorar
porque a vida sem ti
não tem qualquer sentido
mas contigo é um tormento
porque sinto o peso demasiado
nuns ombros que já se me vergam
e porque a carne te reclama
sempre que não estás

Chamo-te amor...mas serás mesmo
o meu amor
ou uma doença da qual eu não sei viver sem?!



- São Reis -



"Anularia todos os teus amores. Tuas mãos nascem dentro de mim, teus pés conhecem apenas meus caminhos. Você ainda não me ama, não sou um grande amor que existe nos poemas. Sou apenas teu desejo mais discreto, destes que não se revelam num olhar ou num sorriso. Sou apenas uma história que você gostaria de contar, algum dia, alguma noite, em alguma cama, para enciumar alguém. Gosta de mim porque não alimento tua insegurança. Comigo a vida não teria tantos medos ou desvios. Me sentiria mal se pudesse te corresponder com a verdade. Me odeio por permanecer para você. Somos culpados. Para quê enumerar tantas desculpas? Não me ame mesmo. Não encontre em mim o que você procura. Por favor, diga que não sou eu. É madrugada. Está frio. Meu corpo no teu, aquecemos, esqueceremos. Se amanhecer iremos nos perder."


- Cáh Morandi -




Pedaços de Mim by Martha Medeiros

Eu sou feita de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos

Sou feita de
Choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci

Eu sou
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante

Tive noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não-prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir,para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivendo e aprendendo.


- Martha Medeiros -



De Longe Hei de Amar-te by Cecilia Meireles

De longe hei de amar-te
da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

- Cecília Meireles


Agora é diferente by Manuel Antonio Pina

Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados

No meio de nós 
já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora.


- Manuel António Pina -


Segura Minha Mão by Bibiana Benites

Segura minha mão, me abraça, Recita poemas, diz frases soltas, me convence que nós ainda podemos ser. Fala baixinho no meu ouvido, se debruça no meu ombro, me nina, me rima, soma.

Me faz querer ficar, me traz pra perto, me faz querer dizer, e diz. Brinca, deixa a alma se expor, o coração transpor, verso teu e meu numa linha tênue. Código nosso. Sintonia nossa. Incensos e orações tão nossos.

Pula, anula segura no meu laço, decifra, antecede. Planta lírios, açucenas, floresce em mim mais uma vez. Abandona o passado, escreve, desacelera, volta pra casa, desperta meu riso repentino, me traz 'todas aquelas coisas boas'.

Traz também a leveza das tuas mãos, do teu corpo, estampa sorrisos pela casa, amanhece em mim. Perfuma com teu cheiro as ausências que se acumularam.

Descompassa minhas certezas tortas.


- Bibiana Benites -



Para Que Acordar by Joaquim Monteiro

Para quê acordar, desta plenitude no sangue,
Se a eternidade são dois corações batendo
Numa alegria tão grande que no peito arde.

Rio, mar, afluente, fonte, tudo são águas.
A crescer na boca, quando os lábios outros beijam.
Quando a pele úmida retém a luminosidade
Do olhar, pelo mapear dos dedos nos caminhos
Do desejo, exaltando o murmúrio, como um cego
Exalta o tacto na seda insuspeitada.

Como se pode acordar deste labor de corpos
Tornados grito, que em chamas se consomem,
Formando uma cinza tão pura e inocente
Que numa mortalha doce se transformam.

Ó noite, ó dia, tão próximos estávamos de ser estrelas
Se, a doce brisa não acordasse insubmisso sangue.



- Joaquim Monteiro -




Adeus by Bruno Junger Mafra

O adeus que não lhe dei
seria em forma de uma,
de uma viola.

Cidade onde morei
a sua e a minha morte
se completam
numa canção de vento
e canavial.

Carros de boi berrantes
nas tardes quentes
tudo mastigado e só,
vontade louca de amar
por suas ruas maceradas
de solidão.

Seara seca do cérebro
toda a saudade depositada
numa urna que não se abre
carregando pra sempre
minha alma distante
vazia de mim.


- Bruno Junger Mafra -



O Teu Silencio by São Reis

O teu silêncio
é a morte anunciada
da minha vontade
mas como dizer-te 
que estou triste
se nem o vento passa
mais por aqui?

Como dizer-te que os 
teus lábios carnudos
me fazem falta
mesmo quando 
me mandam silenciar?

O teu silêncio
é o meu ventre secando
e os meus cabelos e
mbranquecendo
são as palavras 
definhando
e a tinta morrendo 
no aparo da caneta.

O teu silêncio
é tudo o que me 
habita agora
quando os teus olhos
deixaram de ser proa
e o teu corpo navio
e eu perdi o norte do 
porto de abrigo
que me era refúgio.


- São Reis -




Sonho Contigo by Antonio Barroso Cruz


Sonho contigo em sonhos
longos e sem freio,
em que a tua imagem
se ergue em mim
qual poema sem receio.

Sonho com os beijos
que te tomei
dos lábios rubros de desejos
curvas serenas do teu olhar
ao encontro das minhas
loucuras e ensejos.

Sonho com o teu corpo,
esguio e adocicado,
que parece ter ondas
que em mim rebentam
como abraços
de um mar salgado.

Sonho com as tuas palavras,
imagens furtivas em mim
deixadas, ora mansas e selvagens,
impulsivas, desassossegadas.

Sonho, sonho contigo
por noites de luas acordadas
nos silêncios de uma condição
distante, onde amanhecem 
as madrugadas 
no teu corpo de amante.

 - Antônio Barroso Cruz -


De Longe Hei de Amar-te by Cecilia Meireles

De longe hei de amar-te
da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.


- Cecília Meireles -




Nua, a noite… by Hamilton Afonso

Em noites em que a solidão me dói,
procuro no céu as estrelas que me façam
recordar de ti…e do brilho intenso do
teu gaiato sorriso…

Escura a noite, como escura é a minha solidão,
apenas tenuamente iluminadas,
a noite pelo aceso brilho das estrelas
e a minha solidão pelo recordar do teu rosto ,
onde aceso, resplandece o teu sorriso.

No outro lado do oceano, que nos separa sinto-te
a olhar o céu à procura da luz das estrelas
que acendi para ti, para que te cubram a solidão,
em noite cerrada…

Fica a promessa que quando o nosso encontro se der
verás o brilho das estrelas em meu olhar
e então os dois enlaçados nos amaremos
apenas cobertos pela noite nua…

Todas as noites acendo as estrelas para ti,
todas as noites a noite nua me recorda que
é possível cobrir a solidão, enchendo-a plena
do amor que nos une…


- Hamilton Afonso -


Pequenos Crimes Entre Amigos by Inês Dias


Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração,
tal como guardei na
boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar
nele, sentir-lhe o peso,
atirá-lo contra a parede 
para depois o apanhares 
e retirares a pele de pêssego
demasiado maduro..

Podes até queimá-lo –
com cuidado, por favor –
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos
debaixo das estrelícias,
de propósito por saberes 
que não as suporto.
Em troca, promete-me
apenas que depois me 
deixas fugir para saber
como é isso de passar 
o resto da vida
desembaraçada
finalmente 
desse peso morto.


- Inês Dias -